Friday, March 23, 2007

Quem é esse homem que me consome?


...um dia eu vou estar à toa e você vai estar na mira...

...eu sei que você sabe que eu sei, que você sabe...

...que é difícil de dizer...


...aqueles dois grandes pés envoltos por um um couro negro reluzente, estavam parados em cima do cordão cinza de concreto, aquele couro não era tão reluzente quanto o brilho das duas luas negras sobre o branco céu, seu corpo era coberto por crepe opaco, e por baixo daquele fino paletó, vestia uma camisa de cetim com muitos botõesinhos que me convidavam a desabotoá-los. O tecido de sua camisa era aparentemente muito macio, mas com certeza devia tornar-se áspero perto do tecido da sua pele, que me pedia para tocá-la; a pele que aspirava sentir a minha pele...seus lábios eram veludos rubros meio enegrecidos e eram de um ardor imensurável, ele sorria maliciosamente com aqueles alvos marfins...e aquela boca puxava a minha boca para perto, sim, eu queria beija-lo, no seu queixo tinha um pequeno aglomerado de pelos bem desenhados que me faziam imaginar muitas coisas...e seu desejo me chamava a deseja-lo fervorosamente, seus cabelos eram sedas que deslisavam até seus ombros pareciam ser tão ou mais macios que a própria seda e minhas mãos desejavam acariciá-los...e quem é ele? que tipo de espírito habita esse tão desejado corpo? Não consigo saber...pois pra mim, ele é um enigma...eu não sei seu nome, eu não sei seu telefone, mas eu sei que toda a vez que eu olhar pra aquelas duas luas negras reluzentes, sentirei novamente este fogo me arder...

Labels:

Saturday, March 17, 2007

Memórias da pequena Meretriz


Olhando para o copo de vinho tinto, já na inconsciência, porque eu havia bebido demais naquela noite, bebia talvez para ter coragem de encarar-me, de encarar minha consciência suja, ter coragem de mergulhar mais uma vez numa daquelas noites luxuriosas que me esperavam sempre.
Sentada na mesa daquele bar, aguardava a chegada “dele” ou simplesmente de mais um deles, fitava no espelho logo a frente, a minha cara embriagada e simplesmente não queria pensar. Sentia ao mesmo tempo a coragem de uma valente amazona e a covardia de um pequeno filhote de réptil peçonhento, que mesmo na infância e na fraqueza, não deixa de destilar o seu veneno. Já passava da meia-noite quando aquele homem muito perfumado, de boa aparência, com o olhar arrebatador e um certo sarcasmo no sorriso se aproximou de mim e indagou:
- É você?
Eu olhei pra aquele homem, e o furor escaldante do desejo no fundo daqueles olhos negros me fez não ter mais nenhuma dúvida, era com ele que eu havia falado ao telefone horas atrás, e com quem eu tinha marcado naquele lugar. Não sei como, mas eu sempre soube interpretar o olhar de um homem, principalmente quando dirigido a mim.
- Sou sim, você deve ser o Sr.........
Beijando minha mão ele disse:
- Ferreira! Sou Octávio Ferreira, às suas ordens!
Eu não entendia o porque de tanta gentileza, afinal, eu era apenas uma “cafetina mirim”. Fazendo um sinal de respeito ele sentou; para a minha surpresa, passamos algumas horas conversando, coisa que não era de costume. De alguma forma aquele homem tentava me ganhar, me seduzir. Ora! Mas não era eu quem o devia seduzir? Sim, como fazia sempre, pois tinha a plena certeza que no interior de seu paletó, ele carregava as únicas coisas pelas quais eu estava ali naquela noite, que eram as notas verdes. Mas ele queria extrair muito mais de mim, não dinheiro, mas talvez extrair a única coisa que eu não pudesse entregar a ele. Ele sabia, e todos sabem que uma meretriz não pode amar, pois quando vende o seu corpo, automaticamente está vendendo muitos dos seus direitos dos seus sonhos e até mesmo abrindo mão do seu próprio coração, e não sei como, mas ele tinha a certeza que até mesmo “cafetinas mirins” são tomadas de amor de vez em quando, que se deixam arrebatar pelas ironias, pelas grandes ironias do destino.

Labels:

Sunday, February 04, 2007

Minha lua Negra


Furtou-me toda força vital;

Fez de mim prisioneira mortal

Dessa sua áurea sideral


Doce é sucumbir ao teu veneno

Ao teu relógio de rodeios

Oh serpe dos meus devaneios...


Quando trará paz a este espírito?

Quando derramará uma lágrima em meu nome?

Tens-me hoje tua e sempre

Mas me castiga por crime sem nome...


Quisera eu adentrar tua alma

Tocar tua essência escura

E saber do teu real desejo

Na furna de tua loucura...


Oh púrpura de sonhos

Cravo dos meus abismos

Tiraste o dom das minhas lágrimas

E deixaste um punhal em meu coração...


Pintei teu retrato em luz e sombra

Natureza mórbida

Em tela de acrílico

Morta é sim esta saudade que bate

Este ópio que me abate
E me deixa sem razão


Por que não volta ao meu porto?

Asas de minha ilusão

Porque não faz da minha vida,

Poesia e canção?


Suplicar é inútil

Então me recolho a este santuário de espera

Angústia e solidão...


E na tua veia bebo o sangue da morte

E nos teus passos sou

A sombra a te guiar...


Isis Nalin 08/01/06

Labels:

Tuesday, January 30, 2007

O Barco de verga (Mika Waltari)


Eu, SINUHE, filho de Senmut e de sua mulher Kipa, escrevo isto. Não escrevo para a glória dos deuses da terra de Kan porque estou cansado de deuses, nem para a glória dos faraós porque estou cansado de seus feitos. Tampouco escrevo por medo ou por qualquer esperança no futuro; escrevo para mim, apenas. O que vi, conheci e perdi durante a minha vida, foi coisa demasiada para que me domine um vão temor; e,quanto a algum desejo de imortalidade, estou tão exausto disso quanto dos deuses e dos reis. É apenas por minha causa que escrevo, por tal motivo e essência diferindo eu de todos os escritores passados e vindouros.
Principio este livro no terceiro ano de meu exílio nas praias do mar Oriental de onde os navios saem para as terras do ponto; aqui, perto do deserto junto aquelas colinas cuja a pedra foi retirada para a construção das estátuas dos primitivos deuses. Escrevo porque já agora o vinho é amargo para a minha boca, porque perdi o prazer que achava nas mulheres, e porque nem jardins nem lagos com peixes me distraem mais. Expulcei os cantores, pois o som proveniente de sopro ou de cordas é tormento para os meus ouvidos. Por conseguinte eu, Sinuhe, escrevo isto já que não me importo com a minha riqueza, as minhas taças de ouro, o meu ébano, o marfim e a mirra.
Nada disso me foi tomado. Escravos ainda temem as minhas varas. Guardas inclinam a cabeça e deixam cair as mãos até os joelhos, diante de mim. Mas limites foram impostos aos meus passos e nenhum navio consegue transpor as ressacas que imperam neste litoral; nunca mais poderei sentir o cheiro da terra negra pelas noites de primavera.
O meu nome outrora foi inscrito no livro de ouro do faraó e sempre permaneci à sua destra. Minhas palavras contrabalançavam as dos poderosos na terra de Kan; nobres me enviavam dádivas, e correntes de ouro pendiam do meu pescoço.
Possuí tudo quanto um homem pode desejar, mas como todo homem desejei mais- e por conseguinte fiquei reduzido ao que ora sou. Fui banido de Tebas no sexto ano do reinado do faraó Horemheb, ameaçado de ser batido até a morte como um cão, se voltasse...de ser esmagado entre pedras como uma rã se desse um passo sequer para fora da área estabelecida como lugar de residência. E isso por ordem do rei, do faraó que fora outrora meu amigo.
Mas antes de começar o meu livro quero deixar meu coração se lamentar em prantos porque assim no exílio cumpre a um coração chorar sempre que mágoas o enegrecem.
Todo aquele que uma vez bebeu água no Nilo, ansiará para sempre tornar para perto dele, pois a sede não se aplacará com as águas de nenhuma outra terra.

Labels:

Wednesday, January 24, 2007

...Ando por todos os lugares, olho para todas as pessoas e sabe...parece que falta alguma coisa, existe um mecanismo que não me deixa descançar dessa dor, essa ausência...sim eu te procuro, te procuro em todos os lugares, te persigo pelas esquinas e ruas, e parece que foje de mim, eu corro, corro muito, mas não consigo te alcançar, é inútil, eu sei que é tudo inútil, não sei porque meu coração insiste nisso quando minha razão grita pra mim desistir...eu não sei se vc existe mas meu coração te quer perto dele, muito perto, mas eu te sinto tão perto e tão longe de mim, tão longe que eu simplesmente não posso estar com vc...
CELIA CRUZ Te Busco
Al cielo una mirada larga
buscando un poco de mi vida.
Mis estrellas no responden
para alumbrarme hacia tu risa.
Olas que esfuman de mis ojos
a una legión de tus recuerdos.
Me roban formas de tu rostro
dejando arena en el silencio.
Te busco perdida entre sueños
el ruido de la gente me envuelven en un velo.
Te busco volando en el cielo
el viento te ha llevado como un pañuelo viejo.
Y no hago más que rebuscar
paisajes conocidos
en lugares tan extraños
que no puedo dar contigo.
En cualquier huella te persigo
en una sombra te dibujo
huellas y sombras que se pierden (en la soledad)
la suerte no vino conmigo.
Te busco perdida entre sueños
el ruido de la gente me envuelven en un velo.
Te busco volando en el cielo
el viento te ha llevado como un pañuelo viejo.
Y no hago más que rebuscar
paisajes conocidos
en lugares tan extraños
que no puedo dar contigo.
Te busco

Sunday, January 14, 2007

Vida Real


É tão estranho, as coisas não estávam exatamente em seu lugar, olhava aquelas ruas desconhecidas, passava por tantos lugares sentada naquela pequena cadeira dentro daquele grande veículo, eram sim, ruas conhecidas pra mim, mas que se deixavam escurecer, que se perdiam entre sombras e luzes de um fim de tarde... Estava conciente sim do que eu fazia, estava eu aí a interpretar a mesma peça de sempre chamada "Vida Real", o grande veículo parava de vez por vez, e eu ali sentada observava as pessoas na calaçada, tantos olhares, tantas espressões, o olhar de quem espera, o olhar de quem tem esperança, o olhar de quem odeia, o olhar de quem sofre, de quem ama, de quem age, de quem paquera, de quem sabe, o olhar libidinoso, o olhar traidor, o olhar da inocência o olhar da inconciência, sei que este pequeno instânte,apenas alguns segundos, eram de grande valia, tanto que se pode perder em alguns segundos uma vida toda, mas eu sentia que nesses mesmos segundos eu podia estar recuperando a minha...Sim aquela vida que a muito se achava perdida, por entre delírios e realidades surreais, aquela vida que anciava encontrar que talvez nunca a tivesse verdadeiramente tido...Quem sou eu? O que faço aqui? Que papel estou interpretando dessa vez? O que o universo planeja pra mim? Não sei, não posso saber...Mas queria por um momento poder fugir de mim mesma, fugir desse meu "eu" que corre, que percegue algo. Mas sei que a única forma de ficar longe disso é encorporando esse personagem, o que muitas vezes não é possível...

Friday, January 12, 2007

Hayet(Minha alma)


...dançava alegremente como este fosse o dia da sua libertação... Dos sorrisos da felicidade... Isso o que aparentava ser..sim o que aparentava...
Sentia a dor em minha alma, como se toda aquela dor me invadisse der repente me deixasse mergulhada, chafurdada como se aquela musica entrasse com o ar pelas minhas narinas pequenas, como se adentrasse as profundezas da minha alma chegasse as minhas veias e contaminasse meu sangue, a música que tocavam enquanto eu corria, ah sim eu corria, eu corria pro nada, pro nunca, pro fim até de mim mesma... Como se eu estivesse na busca pelo meu interior por aquela musica que se perdera dentro de mim, dentro do meu passado, dos meus sentidos, levava comigo o motivo de tudo, o único motivo pelo qual eu existiria ali, eu estaria ali... Mas aquela música me entorpecia... Puxando de meu corpo todo calor, toda vida, deixando tudo à tona tudo como se estivesse volúvel, frágil como um cristal... Aos poucos percebia que aquela liberdade toda na verdade não existia pra mim, porque eu era presa, não apenas pelo corpo, mas por mim mesma... Pelos meus sentidos que estavam entorpecidos.., enquanto eu era arrastada ela me olhava, sim me olhava, me olhava e administrava todos os seus ritmos,toda sua dor, ela sim, poderia saber o que eu sentia...o que se passava...como se seus olhos grandes esmeralda me dissessem para lembrar daquele dia como o dia que quase vi a liberdade, sim estive perto dela, logo então percebi que aqueles olhos estavam certos e que nada mais adiantava correr, ah como eu queria correr! Como queria fugir, como queria! Como queria poder telo para sempre, para toda a vida... E poder acordar todos os dias a seu lado... Dormir todas as noites no seu aconchego... Sim eu queria uma coisa que talvez nunca consiga... Eu amava uma pessoa que talvez nunca volte a ver... Mas eu o amava, eu o amo...
...lá estava eu, dançava, dançava... Mas não com a “alegria” de sempre, mas com a dor macia, dançava sim, os mesmos ritmos que haviam sido gravados em minha alma em minha essência... Ainda podia ouvir aquela musica... Ainda podia sentir aquela dor... Como se o mundo estivesse se aberto pra mim e eu não podia descobri-lo...
...aos prantos percebi que a aquela música e aquele dia seriam recordados para toda a minha vida, mas não só naquela passagem, mas toda vida e toda musica que trago até hoje, gravada em mim, como se fosse eu mesma...ela é sim parte de mim...percebi que me lembraria daquele dia como o dia mais feliz e mais triste de muitas das minhas existências...